Quando o apito perde a confiança: o que a Copa 2026 nos ensina sobre integridade no futebol

Compliance e Integridade Destaque Esporte

A controvérsia envolvendo Argentina e Egito mostra que a legitimidade da arbitragem depende não apenas da regra, mas da transparência e da integridade de todo o sistema.

A Copa do Mundo de 2026 deixou claro que a arbitragem já não pode ser tratada apenas como uma questão técnica nem como uma autoridade acima de qualquer questionamento, pois as decisões tomadas em campo também possuem dimensão ética, institucional e de governança.

É fato também que o futebol sempre conviveu com o fator “erro humano”, e até aí tudo bem, porque erros acontecem em qualquer ambiente. A diferença é que hoje a tecnologia ampliou a expectativa de justiça, pois com o VAR, múltiplas câmeras de última geração, comunicação entre árbitros e revisão de lances decisivos, o torcedor passou a acreditar que a margem de erro seria bem menor e que as decisões se tornariam mais transparentes. Mas o que acontece quando toda essa tecnologia existe e, ainda assim, a decisão continua incapaz de convencer quem assiste ao jogo?

Argentina e Egito: o jogo que reacendeu o debate sobre arbitragem

Antes de falar sobre aquele jogo, preciso compartilhar uma razão muito pessoal para tê-lo escolhido como ponto de partida desta reflexão. Meu cunhado, Amro Saad Tawfik El Seoudi Duarte, egípcio de nascimento e apaixonado por futebol, faleceu em 1º de junho deste ano. Quando assisti à partida entre Argentina e Egito, pouco mais de um mês depois de sua despedida, percebi que, pela primeira vez, não ouviria seus comentários, suas análises e o entusiasmo com que sempre acompanhava a seleção egípcia. Talvez por isso este artigo também seja uma forma de homenagear sua memória.

Foi justamente a partida entre Argentina e Egito, pelas oitavas de final da Copa do Mundo, que trouxe essa discussão para o centro do debate. Após a derrota egípcia por 3 a 2, a federação do país protestou contra a arbitragem de François Letexier, questionando a anulação de um gol, possíveis lances de pênalti e a atuação do VAR. Não pretendo discutir aqui se as decisões foram corretas ou equivocadas, porque esse não é o objetivo desta reflexão, mas ficou evidente que o episódio revelou algo muito mais importante: no futebol, a percepção de justiça é tão relevante quanto a própria justiça da decisão.

A repercussão não ficou restrita aos lances da partida, pois ela rapidamente extrapolou a análise técnica da arbitragem e passou a alimentar a percepção de possíveis vieses estruturais, ainda que inexistam elementos capazes de comprová-los. Parte das discussões levantou a hipótese de que fatores externos poderiam influenciar a percepção de tratamento desigual, como o fato de o Egito representar uma seleção africana, não contar com uma figura de projeção mundial como Lionel Messi e adotar uma das legislações mais restritivas em relação às apostas esportivas online, proibidas para seus cidadãos.

Embora nenhum desses aspectos constitua prova de favorecimento ou discriminação, sua simples presença no debate demonstra como a falta de transparência alimenta interpretações que ultrapassam o campo técnico e passam a comprometer a confiança na arbitragem.

O que o compliance tem a ver com tudo isso?

É exatamente nesse ponto que a arbitragem encontra o compliance. Afinal, ambos compartilham o mesmo objetivo: fortalecer a confiança por meio de decisões tomadas com critérios claros, transparência, responsabilidade e integridade.

No esporte, essa lógica não é diferente e a arbitragem precisa ser técnica, mas também precisa ser rastreável, coerente e suficientemente explicável para que sua autoridade não dependa apenas do apito, pois a desconfiança começa justamente quando decisões controversas são justificadas apenas como “interpretação do árbitro”, não porque todo erro seja má-fé, mas porque sistemas que explicam mal suas decisões permitem que a dúvida ocupe o lugar da credibilidade.

No futebol, essa dúvida não fica restrita ao campo, pois alcança torcedores, atletas, federações, patrocinadores e a própria imagem da competição.

Governança também se mede pela capacidade de resposta e independência

A resposta institucional também faz parte desse debate e ganhou novos contornos durante a Copa. Além das críticas envolvendo a partida entre Argentina e Egito, a confirmação de que o presidente Donald Trump telefonou ao presidente da FIFA para pedir a revisão da suspensão de um jogador da seleção norte-americana reacendeu discussões sobre independência institucional e influência política no futebol. A FIFA reiterou que seus órgãos disciplinares atuam de forma autônoma, mas o episódio demonstrou como, em matéria de governança, a simples percepção de interferência já é suficiente para abalar a confiança no sistema.

Essa situação ilustra um dos princípios mais importantes da governança e do compliance: não basta que uma decisão seja independente, ela também precisa parecer independente pois, a legitimidade de qualquer sistema decisório depende tanto da imparcialidade de seus processos quanto da confiança que eles conseguem transmitir à sociedade.

É justamente por isso que o futebol precisa avançar em mecanismos mais claros de transparência, comunicação técnica acessível e prestação de contas sobre lances decisivos, não para fragilizar a autoridade do árbitro, mas para fortalecer o sistema que sustenta suas decisões e preservar a credibilidade da competição.

Um modelo mais maduro de compliance esportivo deveria contemplar protocolos públicos mais compreensíveis, critérios objetivos para revisão de lances, auditoria independente sobre padrões de arbitragem, relatórios técnicos após jogos polêmicos e uma comunicação capaz de explicar ao público por que determinada decisão foi mantida ou alterada, não para transformar cada partida em um processo judicial, mas para reconhecer que a autoridade, quando dissociada da transparência, inevitavelmente perde força.

Quando a arbitragem perde credibilidade, o futebol perde legitimidade

No futebol, a integridade do jogo não depende apenas de impedir manipulação de resultados ou combater apostas ilegais, depende também de garantir que as decisões da competição sejam tomadas com imparcialidade, consistência e responsabilidade institucional sendo a arbitragem uma das faces mais visíveis dessa integridade, porque é ela que traduz a regra em decisão concreta diante de milhões de pessoas.

Por isso, discutir arbitragem ética é também discutir compliance aplicado ao esporte, reconhecendo que a integridade de uma competição não depende apenas das regras do jogo, mas também da qualidade das instituições responsáveis por aplicá-las.

O árbitro continuará sendo humano e, por isso, o erro jamais desaparecerá e o verdadeiro desafio não é eliminar completamente os equívocos, mas reduzir o espaço para dúvidas sobre a forma como as decisões são tomadas, explicadas e controladas.

Por fim, o futebol pode sobreviver a um erro de arbitragem, porque errar faz parte da condição humana, mas o que nenhuma competição consegue suportar é a perda da confiança de quem acredita que as regras são aplicadas de forma imparcial.

Talvez essa seja a maior lição deixada pela Copa de 2026: a credibilidade do futebol não é protegida apenas pelo apito, mas pela integridade de todo o sistema.

Danila Duarte é Doutoranda em Desenvolvimento Regional e Mestre em Gestão de Políticas Públicas, auditora e consultora de Governança, Compliance e Integridade, professora e palestrante. Atua na promoção de instituições mais éticas, transparentes e resilientes. Instagram: @daniladuarte. E-mail: danila@ddcompliance.com.br

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