Em entrevista, Carlos Alberto Moreira de Araújo Junior explica por que planejamento, governança e integridade são decisivos para transformar recursos públicos em serviços para a população.
Antes de uma organização pública funcionar, há uma engrenagem que quase nunca aparece para a população: os processos administrativos das contratações e licitações públicas. São elas que viabilizam restaurantes universitários, laboratórios, vigilância, manutenção, equipamentos e serviços essenciais. Quando funcionam bem, passam despercebidas, mas quando falham, o impacto chega diretamente aos gestores, estudantes, professores, servidores e à sociedade.
O problema é maior do que parece. Segundo a Lista de Alto Risco do Tribunal de Contas da União (TCU), a gestão e a integridade nas contratações públicas estão entre os pontos sensíveis da administração pública brasileira. O levantamento aponta que mais de um terço das organizações avaliadas declararam estar em estágio inicial de capacidade em governança das contratações, enquanto apenas 23% se consideraram em estágio aprimorado de gestão. O relatório também destaca baixo nível de transparência nos processos de aquisição e fragmentação das compras governamentais. Esses dados mostram que as falhas nessa área ampliam riscos de desperdício, ineficiência, desvios e corrupção. Em outras palavras, muitas vezes o problema começa antes mesmo da licitação. Fonte: https://sites.tcu.gov.br/listadealtorisco2022/gestao_e_integridade_nas_contratacoes_publicas.html
Para entender os bastidores desse processo e discutir como planejamento, governança e integridade podem proteger os recursos públicos, conversei com Carlos Alberto Moreira de Araújo Junior, advogado, administrador e Pró-reitor de Administração e Finanças da Universidade Federal do Tocantins. Carlos também coordena o Comitê de Governança nas Contratações Públicas do Instituto Tocantinense de Compliance e Integridade – ITCI, e participa da Comissão de Estudos 258, responsável pela construção da norma ISO de Governança das Contratações Públicas.
Trajetória e propósito
Danila Duarte: Carlos, antes de falarmos sobre sua atuação profissional, quero começar pela sua história. Quem é você fora do cargo e quais experiências da sua trajetória ajudaram a formar o profissional que é hoje?
Carlos Alberto: Sou Carlos Alberto Moreira de Araújo Júnior, natural de Gurupi, no Tocantins, mas foi em Porto Nacional que vivi grande parte da minha infância e juventude. Venho de uma família humilde, de origem simples, e essa realidade moldou profundamente a forma como vejo o trabalho, o estudo e a vida. Sou cristão, casado com Gilcélia e pai de três filhos, Carlos Henrique, Carlos Augusto e Ana Clara, que são minha maior motivação diária e parte essencial da minha caminhada.
Desde cedo entendi que a educação seria o caminho para transformar minha história. Foi esse entendimento que me levou a mudar para Palmas em busca de oportunidades para estudar e trabalhar. Meu objetivo era claro: construir uma trajetória por meio do ensino superior e da dedicação profissional.
Ao longo dos anos, minha caminhada passou a conectar duas áreas fundamentais da minha vida, a Administração Pública e o Direito. Havia um objetivo que me acompanhava desde cedo: contribuir diretamente para a sociedade. Foi essa convicção que me levou a prestar concurso para a Universidade Federal do Tocantins, em 2008. A partir dali, iniciei uma nova fase, construindo minha carreira na administração pública, especialmente na área de gestão e finanças.
Na UFT, fui gestor e fiscal de contratos, presidente da comissão permanente de licitação, pregoeiro oficial, coordenador de recursos materiais e, posteriormente, cheguei à gestão superior da instituição, como Pró-reitor de Administração e Finanças. Paralelamente, nunca deixei de estudar. Além da formação em Administração, também me tornei advogado, concluí mestrado em Prestação Jurisdicional e Direitos Humanos pela UFT e me especializei em Contabilidade e Controladoria, Direito Administrativo e Gestão em Saúde.
Hoje, quando olho para trás, percebo que cada etapa teve seu papel. A origem simples no interior, a experiência no setor privado e a caminhada no serviço público me ensinaram que administrar recursos públicos é, acima de tudo, cuidar de pessoas e contribuir para transformar vidas.
Direito, gestão pública e contratações
Danila Duarte: O que fez você escolher o Direito e entrar em uma área tão estratégica e pouco compreendida como as contratações públicas?
Carlos Alberto: Quem conhece a gestão pública percebe, cedo ou tarde, que por trás de cada decisão administrativa existe uma norma, um princípio e, muitas vezes, um direito de alguém em jogo. Eu já era administrador, já lidava com orçamento, contratos e processos, mas sentia falta de compreender melhor a base jurídica que sustenta tudo isso.
Escolher o Direito foi, para mim, ampliar essa compreensão e fortalecer minha capacidade de atuar em defesa do interesse público com mais segurança, técnica e responsabilidade. Já a atuação na área de contratações públicas nasceu da prática. Desde que ingressei na UFT, em 2008, passei a lidar diretamente com licitações, contratos, orçamento e governança das contratações da universidade.
Foi esse contato diário que despertou em mim a necessidade de aprofundamento. Percebi, na prática, o impacto que uma contratação bem conduzida, ou mal conduzida, pode gerar para a administração. Busquei qualificação para crescer profissionalmente, mas principalmente para entregar resultados melhores. Hoje, também como advogado, essa área deixou de ser apenas meu campo de atuação e passou a ser uma responsabilidade estratégica, porque é por meio das contratações que uma universidade pública transforma orçamento em ensino, pesquisa, extensão e assistência estudantil.
Onde os problemas começam
Danila Duarte: Na prática, onde você acredita que começam os maiores problemas das contratações públicas?
Carlos Alberto: Se eu tivesse que apontar um único ponto, diria sem hesitar que os maiores problemas começam no planejamento, antes mesmo da licitação. As fiscalizações do Tribunal de Contas da União mostram isso com clareza. O TCU tem apontado que falhas como contradições nos artefatos das licitações, a exemplo do Estudo Técnico Preliminar e do Termo de Referência, não são situações isoladas.
Essas falhas decorrem, muitas vezes, de problemas de governança, ausência de segregação de funções e deficiência nos processos internos. Em levantamentos recentes de governança, o Tribunal identificou que mais da metade das organizações federais ainda estavam em estágio inicial de maturidade na gestão de contratações, sem práticas mínimas consolidadas.
Quando analisamos os problemas na ponta, quase sempre a origem está no início do processo: falta de planejamento, ausência de normativos internos, baixa priorização do tema pela alta gestão e uma cultura ainda pouco madura de governança. A execução e a fiscalização são fundamentais, mas uma contratação mal planejada já nasce comprometida.
Quando a falha chega à vida real
Danila Duarte: Você já vivenciou situações em que pequenas falhas geraram grandes impactos para a administração e para a população?
Carlos Alberto: Sim, e é justamente por isso que trato esse tema com tanta convicção. Falhas em contratações públicas não ficam restritas ao papel. Elas produzem efeitos concretos e, em uma universidade pública, isso é ainda mais sensível, porque tudo o que se decide, ou deixa de se decidir, impacta diretamente a vida acadêmica.
Um termo de referência mal elaborado pode atrasar por meses a compra de um equipamento essencial para pesquisa. Uma estimativa de preço mal feita pode levar a uma licitação deserta e deixar um serviço importante sem cobertura. Contratos de limpeza, vigilância ou manutenção, quando falham, afetam diretamente estudantes, professores e servidores.
Muitas vezes, uma falha aparentemente pequena desencadeia consequências enormes. Isso mostra que a contratação pública não é apenas burocracia, mas um instrumento para viabilizar o funcionamento do serviço público. Na universidade pública, isso fica evidente quando observamos restaurante universitário, laboratórios, manutenção da infraestrutura e segurança dependendo de uma contratação. Por isso digo que contratação pública é invisível quando funciona bem, mas extremamente perceptível quando dá errado.
O que precisa mudar no Brasil
Danila Duarte: O que ainda precisa mudar no Brasil para que as contratações públicas sejam mais eficientes?
Carlos Alberto: O Brasil avançou bastante na criação de normativos para a área de contratações, mas lei, sozinha, não resolve. Precisamos abandonar a lógica de que contratar é apenas cumprir etapas formais. Contratar bem exige estratégia, planejamento, governança e capacidade técnica.
Também precisamos investir mais na formação de quem atua diretamente com contratações públicas. A legislação se tornou mais sofisticada e exige profissionais preparados para lidar com gestão de riscos, planejamento, eficiência e controle.
O principal problema, porém, ainda é cultural. Nesse sentido, considero essencial fortalecer a cultura da integridade. Não basta contratar rápido ou executar todo o orçamento. É preciso garantir que o processo seja transparente, ético e protegido contra desvios.
O enfrentamento da corrupção passa, necessariamente, por contratações públicas mais sólidas. A corrupção corrói recursos que deveriam chegar ao cidadão. Na prática, cada contratação comprometida por interesses indevidos representa menos investimento em saúde, educação, infraestrutura e assistência estudantil. Por isso é essencial reforçar mecanismos de compliance, ampliar controles preventivos, garantir rastreabilidade das decisões e fortalecer a responsabilização quando houver irregularidades.
Outro ponto importante é integrar a contratação à estratégia institucional. Quando isso acontece, o ganho é coletivo: a administração funciona melhor, o recurso público é melhor aplicado e o cidadão recebe serviços de mais qualidade. Eficiência em contratação pública, no fim das contas, é eficiência na entrega de políticas públicas.
Erros recorrentes e prevenção
Danila Duarte: Na sua experiência, quais são os erros mais recorrentes que comprometem a eficiência das contratações públicas e que poderiam ser evitados com mais planejamento, governança e integridade?
Carlos Alberto: Na prática, os erros mais recorrentes quase sempre estão concentrados nas etapas iniciais da contratação. O primeiro deles, sem dúvida, é a deficiência no planejamento, que gera contratações mal dimensionadas, aditivos desnecessários e, em alguns casos, até paralisação contratual. Quando os artefatos dessa fase são mal construídos, todo o restante do processo fica vulnerável, desde a disputa até a execução contratual.
Também vejo como problema recorrente a falta de capacitação contínua das equipes. A legislação evolui, os mecanismos de controle se sofisticam e quem atua na área precisa acompanhar esse movimento. Há ainda um ponto sensível: a baixa integração entre os setores demandantes e a área de compras. Muitas vezes, quem solicita não participa adequadamente da construção da solução, o que compromete a qualidade da contratação.
Além disso, falhas de transparência e controles frágeis podem abrir espaço para irregularidades e até práticas de corrupção. Por isso, prevenir erros também é fortalecer a integridade institucional. A boa notícia é que a maioria desses problemas pode ser evitada com planejamento, governança, capacitação e compromisso ético. Quando esses pilares estão presentes, a contratação pública deixa de ser apenas um processo administrativo e passa a ser um instrumento real de transformação social.
Mensagem final
Danila Duarte: Para encerrar, olhando para sua trajetória e para tudo que viveu até aqui, que mensagem você deixa para quem quer seguir esse caminho no Direito e na gestão pública?
Carlos Alberto: Eu diria que esse é um caminho exigente, mas profundamente transformador. Quem escolhe atuar com contratações públicas precisa entender que está lidando com decisões que impactam vidas reais. Por isso, essa atuação exige estudo constante, responsabilidade e disposição para aprender sempre.
Meu conselho é que as pessoas não se limitem ao conhecimento formal. É preciso buscar entender como as instituições funcionam na prática e qual é a sua missão. No fim, o que sustenta uma trajetória não é apenas o que fazemos como profissionais, mas o impacto que deixamos nas instituições e na vida das pessoas.
Conclusão
Ao final da conversa, uma conclusão fica evidente: contratação pública demanda estratégia, governança e responsabilidade social e quando bem estruturada, transforma orçamento em serviços, políticas públicas e qualidade de vida, mas quando falha, expõe fragilidades que custam caro para toda a sociedade.
Perfil do entrevistado
Carlos Alberto Moreira de Araújo Junior é advogado e servidor público de carreira da Universidade Federal do Tocantins, onde atua na gestão superior como Pró-reitor de Administração e Finanças. É Mestre em Prestação Jurisdicional e Direitos Humanos pela UFT, graduado em Direito e Administração e especialista em Direito Administrativo, Gestão em Saúde e Contabilidade e Controladoria.
Sua trajetória profissional une Administração Pública e Direito. Ingressou no serviço público na UFT em 2008, após experiência no setor privado em instituições financeiras, e construiu carreira nas áreas de gestão, finanças, contratos e contratações públicas. Atuou como gestor e fiscal de contratos, pregoeiro oficial, presidente da comissão permanente de licitação, coordenador de recursos materiais e Pró-reitor de Administração e Finanças.
Também coordena o Comitê de Governança e Contratações Públicas do Instituto Tocantinense de Compliance e Integridade, ITCI, e participa da Comissão de Estudos 258, responsável pela construção da norma ISO de Governança Pública.
Com experiência em governança, planejamento governamental, orçamento, finanças públicas e gestão das contratações, defende que planejamento, integridade e controle são instrumentos essenciais para garantir a boa aplicação dos recursos públicos e entregar melhores resultados à sociedade.
Instagram: @moreira.araujo.adv
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