Vida real: os dilemas do compliance nas empresas familiares

Compliance e Integridade

Empresas familiares podem ter códigos de ética, canais de denúncia e programas de compliance robustos, mas o verdadeiro teste de integridade começa quando as regras precisam alcançar quem tem o sobrenome, o patrimônio e o poder de decidir.

Existe uma frase que já ouvi algumas vezes dentro de empresas e que, apesar de parecer simples, diz muito sobre governança: “a empresa é minha”. Normalmente essa frase aparece quando uma regra, um procedimento ou um controle começa a incomodar justamente quem está no topo, e é nesse momento que percebo como implementar compliance em uma empresa familiar pode ser muito mais complexo do que criar políticas, códigos de ética, canais de denúncia ou matrizes de riscos, porque o maior desafio não está em ensinar os colaboradores a obedecer às regras, mas em fazer com que a própria família controladora aceite estar submetida a elas.

Tenho enorme respeito pelas empresas familiares, especialmente porque muitas nasceram do esforço de uma pessoa que começou praticamente do zero, assumiu riscos, envolveu o cônjuge, colocou os filhos para trabalhar, atravessou crises e conseguiu transformar um pequeno negócio em patrimônio para várias gerações.

Essa história, entretanto, também ajuda a explicar os dilemas que surgem quando aquilo que começou como extensão da vida familiar precisa, em algum momento, transformar-se em uma organização com regras, responsabilidades, limites e mecanismos de prestação de contas.

Ao longo da minha trajetória profissional, acompanhando diferentes organizações, já presenciei situações que me fizeram perceber como essa transição pode ser difícil e quantos conflitos aparecem justamente quando família, propriedade e gestão se encontram. Alguns desses dilemas se repetem com tanta frequência que decidi reuni-los neste artigo, não para julgar empresas familiares, mas para provocar uma reflexão sobre questões que muitas delas, em algum momento, precisarão enfrentar.

O filho do dono também precisa provar competência?

Um dos primeiros dilemas aparece na contratação e na sucessão, então, se uma empresa afirma que valoriza meritocracia, competência e desempenho, como deve agir quando o candidato a uma posição estratégica é filho, filha, irmão, sobrinho ou cônjuge do controlador? O sobrenome pode abrir a porta da empresa, mas deveria ser suficiente para garantir uma cadeira na diretoria? Quando patrimônio, família, sucessão e poder empresarial estão misturados, quem garante que as decisões estão sendo tomadas no melhor interesse da organização?

As perguntas parecem provocativas, mas estão no cerne da governança das empresas familiares. Um executivo contratado no mercado precisa apresentar currículo, experiência, resultados e competências para ocupar determinada função, enquanto, em algumas organizações familiares, o herdeiro simplesmente cresce sabendo que um dia aquela cadeira será sua. Eu não vejo problema algum em familiares trabalharem na própria empresa, muito menos em prepará-los para assumir posições de liderança, o problema começa quando parentesco passa a substituir competência e quando critérios aplicados aos demais deixam de valer justamente para quem pertence à família controladora.

A confiança familiar substitui o controle?

Outro dilema que encontro é ainda mais cotidiano. Em empresas familiares existe uma confiança construída durante décadas e isso pode ser uma enorme vantagem competitiva, mas também pode se transformar em vulnerabilidade quando alguém acredita que confiança elimina a necessidade de controles. Frases como essas são muitos comuns: “É meu irmão, confio nele.” “Minha filha cuida do financeiro.” “Meu marido sempre fez os pagamentos.” “Meu sobrinho compra para a empresa há anos.”

Eu compreendo perfeitamente a lógica emocional dessas frases, mas, sob a perspectiva do compliance, nenhuma delas substitui segregação de funções, alçadas, conciliações, prestação de contas ou gestão de conflitos de interesse e um bom controle não deveria existir porque desconfiamos das pessoas, ele existe porque organizações precisam funcionar independentemente de quem ocupa determinada cadeira.

E aqui aparece uma das contradições que mais me chamam atenção: algumas empresas familiares exigem controles rigorosos dos empregados, mas consideram ofensivo aplicar os mesmos controles aos membros da família. Se todos precisam prestar contas, por que o proprietário não precisaria?

Onde termina o dinheiro da empresa e começa o dinheiro da família?

Esse é outro ponto delicado e, em empresas menores, muitas vezes aparece de maneira quase natural. O veículo pertence à empresa, mas é utilizado pela família, funcionários resolvem questões particulares dos proprietários durante o expediente, viagens misturam compromissos profissionais e lazer, despesas pessoais aparecem no cartão corporativo e retiradas acontecem sem critérios claramente definidos.

Individualmente, algumas dessas situações podem parecer pequenas, mas juntas revelam um problema maior: a ausência de uma fronteira clara entre patrimônio empresarial e patrimônio familiar.

E quando quem viola o código de ética é o filho do dono?

Para mim, esse é um dos testes mais interessantes de qualquer programa de compliance em empresa familiar.

Imagine uma organização cujo código de ética proíba assédio, conflito de interesses, favorecimento, discriminação e utilização indevida de recursos corporativos. Agora imagine que uma denúncia consistente seja apresentada contra um diretor que também é filho do fundador. Quem investigará? O compliance terá independência? O canal de denúncias será realmente confidencial? A consequência será a mesma que seria aplicada a um gerente contratado no mercado? E, principalmente, os empregados acreditam nisso?

Não basta uma empresa possuir canal de denúncias, porque o verdadeiro indicador de maturidade é a confiança de que uma denúncia contra alguém poderoso será tratada com a mesma seriedade de uma denúncia contra qualquer outro colaborador. Se todos sabem que determinadas pessoas são intocáveis, o canal pode continuar funcionando tecnicamente, mas o programa de integridade já deixou de funcionar culturalmente.

O almoço de domingo pode substituir uma reunião do conselho?

Outro fenômeno característico das empresas familiares acontece quando decisões empresariais importantes atravessam a fronteira da organização e chegam à mesa da família. Estratégias, contratações, sucessões, investimentos e conflitos podem ser discutidos no almoço de domingo, no grupo de WhatsApp ou durante uma viagem, enquanto a estrutura formal de governança permanece esperando uma reunião que, na prática, servirá apenas para formalizar algo que já foi decidido.

Isso não significa que familiares devam deixar de conversar sobre a empresa fora do escritório, algo praticamente impossível quando o negócio ocupa parte importante da vida da família, mas existe uma enorme diferença entre conversar sobre a organização e substituir seus fóruns decisórios por relações familiares informais.

Quem tem coragem de dizer não ao fundador?

Esse é, para mim, o dilema mais importante: a empresa pode possuir conselho de administração, auditoria, compliance, controles internos, políticas e executivos profissionais, mas o que acontece quando o fundador entra na sala e diz que quer fazer diferente? Quem pode dizer não? Aí que descobrimos se existe governança ou apenas uma estrutura de governança.

Empresas familiares podem contratar excelentes executivos e conselheiros independentes, mas profissionalização significa aceitar uma consequência que nem sempre é confortável: dividir poder. Não adianta contratar profissionais para administrar e interferir em cada decisão quando o resultado desagrada à família, assim como não adianta criar um conselho se sua única função for confirmar aquilo que o controlador já decidiu.

O compliance vale para todos ou apenas para quem não é da família?

No fundo no fundo, todos esses dilemas conduzem à mesma pergunta: se um gerente apresentar desempenho insatisfatório, ele será substituído, mas o filho do proprietário também será? Se um colaborador contratar a empresa de um amigo sem declarar o conflito de interesses, será questionado, mas o mesmo acontecerá quando um familiar contratar o negócio do cunhado? Se um empregado utilizar recursos corporativos para fins particulares, sofrerá consequências, mas a regra continuará valendo quando quem utiliza esses recursos é um dos proprietários? Se uma denúncia atingir alguém da família, haverá investigação independente?

É muito fácil defender integridade quando as regras atingem os outros, entretanto, o verdadeiro teste começa quando elas limitam o nosso próprio poder.

Por isso, acredito que empresas familiares precisam de algo que vai além do programa tradicional de compliance. Elas precisam construir uma verdadeira governança da família, com critérios objetivos para ingresso de familiares na empresa, regras de sucessão, política de conflitos de interesse, definição clara de remuneração e distribuição de resultados, separação patrimonial, instâncias independentes para investigação, conselhos capazes de exercer contraponto e, dependendo do porte e da complexidade da organização, protocolos familiares que estabeleçam previamente aquilo que será muito mais difícil discutir quando surgir um conflito.

Nada disso significa retirar da família aquilo que ela construiu. Pelo contrário, significa criar condições para que o negócio sobreviva à própria família.

Eu não acredito que empresas familiares sejam menos éticas ou menos profissionais do que outras organizações, pelo contrário, muitas carregam valores fortíssimos justamente porque existe uma história, um nome e um legado que a família deseja preservar. O problema aparece quando essa história é utilizada para justificar privilégios, quando confiança substitui controle, quando sobrenome substitui competência e quando propriedade é confundida com imunidade às próprias regras.

Para mim, compliance em empresa familiar não começa com a pergunta sobre quantas políticas existem, quantos treinamentos foram realizados ou quantas denúncias chegaram ao canal, começa com uma pergunta muito mais simples e incômoda: a família que exige integridade de todos está realmente disposta a aceitar as mesmas regras quando elas alcançam seus próprios interesses?

Danila Duarte é Doutoranda em Desenvolvimento Regional e Mestre em Gestão de Políticas Públicas, auditora e consultora de Governança, Compliance e Integridade, professora e palestrante. Atua na promoção de instituições mais éticas, transparentes e resilientes. Instagram: @daniladuarte. E-mail: danila@ddcompliance.com.br.

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